
Listen to DUAS MENTIRAS INFANTIS (1913) by Alexandre Spinelli Ferreira MP3 song. DUAS MENTIRAS INFANTIS (1913) song from Alexandre Spinelli Ferreira is available on Audio.com. The duration of song is 09:02. This high-quality MP3 track has 155.969 kbps bitrate and was uploaded on 8 Jun 2024. Stream and download DUAS MENTIRAS INFANTIS (1913) by Alexandre Spinelli Ferreira for free on Audio.com – your ultimate destination for MP3 music.










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The transcription discusses two childhood lies and their significant impact on the individuals' lives. The first story involves a 7-year-old girl who lies to her father about using money for paints instead of contributing to a princess's funeral. This lie leads to her punishment and changes her behavior, becoming shy and hesitant. The second story is about a woman whose childhood lies stem from a strong attachment to her father. These lies reflect her desire to protect her father's image. Both stories highlight the importance of understanding the motives behind children's lies and their potential long-term consequences. DUAS MENTIRAS INFANTIS, 1913 Podemos compreender que crianças mintam quando, ao fazĂª-lo, imitam as mentiras dos adultos. Um certo nĂºmero de mentiras de crianças bem educadas tĂªm significaĂ§Ă£o especial e devem fazer refletir os que as educam, em vez de imitĂ¡-las. Essas mentiras ocorrem por influĂªncia de motivos amorosos intensos e tĂªm graves consequĂªncias quando provocam um mal-entendido entre a criança e a pessoa que ama. 1. Uma garota de 7 anos de idade, no segundo ano escolar, pediu algum dinheiro ao pai a fim de comprar tintas para pintar ovos de PĂ¡scoa. O pai se recusou a dar-lhe dinheiro, argumentando que nĂ£o o tinha. Pouco depois, ela lhe solicita dinheiro para colaborar na aquisiĂ§Ă£o de uma coroa para o funeral da princesa reinante, que vem de falecer. Cada criança da escola deve contribuir com 0,50 centavos. O pai lhe dĂ¡ 10 marcos. Ela faz sua contribuiĂ§Ă£o e deixa 9 marcos na escrivaninha do pai, tendo usado os restantes 0,50 centavos na compra de tintas, que esconde no armĂ¡rio de brinquedos. Durante a refeiĂ§Ă£o, o pai pergunta desconfiado o que ela fez com os 0,50 centavos que faltavam, se nĂ£o comprasse tintas com ele. Ela nega, mas seu irmĂ£o, dois anos mais velho e com quem ela pretendia pintar os ovos, a denuncia. Encontra as tintas em seu armĂ¡rio. O pai, irado, entrega a culpada mĂ£e para que a castigue, o que Ă© feito energicamente. Depois, a prĂ³pria mĂ£e se comove ao notar o quanto a menina se desespera. Ela lhe faz carinhos apĂ³s a surra, leva para um passeio a fim de consolĂ¡-la. Mas os efeitos dessa experiĂªncia, que a paciente mesmo designa como uma virada de sua infĂ¢ncia, mostram-se irrevogĂ¡veis. AtĂ© entĂ£o, ela era uma criança travessa e confiante. Torna-se, entĂ£o, tĂmida e hesitante. Na Ă©poca de seu noivado, tem acessos de fĂºria para si mesma incompreensĂveis, quando a mĂ£e procura mobĂlia e enxoval. O dinheiro Ă© seu, pensa. NinguĂ©m mais pode fazer compras com ele. HĂ¡ pouco tempo casada, tem vergonha de solicitar que o marido pague suas despesas pessoais e distingue, de maneira supĂ©rflua, entre o seu dinheiro e o dele. Durante tratamentos, sucede Ă s vezes que as remessas do marido atrasem, de sorte que ela fica sem meios numa cidade que nĂ£o Ă© a sua. Depois de certa vez, me contou isso, fiz-lhe prometer que me tomaria emprestada a pequena soma de que necessitasse, caso se repetisse a situaĂ§Ă£o. Ela promete isso, mas na dificuldade financeira seguinte, nĂ£o mantĂ©m a promessa, preferindo empenhar suas joias. Explica que nĂ£o pode tomar dinheiro de mim. A apropriaĂ§Ă£o de cinquenta centavos na infĂ¢ncia tinha um significado que o pai nĂ£o podia imaginar. Algum tempo antes de frequentar a escola, ela havia protagonizado uma cena singular com o dinheiro. Uma vizinha amiga a enviava a uma loja com uma pequena soma para comprar algo, juntamente com seu filho ainda menor que ela. ApĂ³s a compra, ela ia trazendo o troco, por ser a mais velha, mas ao deparar com uma criada da vizinha da rua, jogou o dinheiro ao chĂ£o. Na anĂ¡lise desse ato, para ela mesma, inexplicĂ¡vel, ocorreu-lhe Judas, que jogou fora as moedas de prata que receberam pela traiĂ§Ă£o ao senhor. Ela afirma estar certa de que aprendeu essa histĂ³ria da paixĂ£o antes da idade escolar. Mas como podia identificar-se com Judas? Aos treze anos e meio, ela tinha uma babĂ¡ a que era muito apegada. Essa babĂ¡ estabeleceu relações erĂ³ticas com um mĂ©dico, cujo consultĂ³rio visitava juntamente com a menina. Ao que parece, a menina testemunhou diferentes situações sexuais. NĂ£o Ă© certo que o mĂ©dico tenha dado dinheiro Ă moça, mas, sem dĂºvida, a moça dava pequenas moedas Ă criança para garantir seu silĂªncio, com os quais ela fazia compras, provavelmente de guloseimas, na volta para casa. É tambĂ©m possĂvel que o prĂ³prio mĂ©dico desse dinheiro Ă menina de vez em quando. Apesar disso, ela traiu a babĂ¡ Ă mĂ£e por ciĂºme. Brincou de forma tĂ£o ostensiva com os tostões recebidos que a mĂ£e lhe perguntou a origem daquele dinheiro. A babĂ¡ foi despedida. Tomar dinheiro de alguĂ©m, entĂ£o, teve para ela muito cedo o significado de entrega corporal, de relaĂ§Ă£o amorosa. Receber dinheiro do pai tinha o valor de uma declaraĂ§Ă£o de amor. A fantasia do pai ser seu amado era tĂ£o sedutora que, com o auxĂlio dela, o desejo infantil das tintas para os ovos de PĂ¡scoa sobrepĂ´s-se facilmente Ă proibiĂ§Ă£o. Mas ela nĂ£o podia confessar que se apropriaria do dinheiro. Tinha de negar, porque o motivo do ato, para ela mesma inconsciente, nĂ£o era confessĂ¡vel. O castigo do pai foi, portanto, uma rejeiĂ§Ă£o da ternura que lhe era oferecida, um repĂºdio, e destruiu seu Ă¢nimo. No tratamento, irrompeu um severo estado depressivo, cuja resoluĂ§Ă£o levou Ă lembrança que venho de comunicar, quando certa vez me vi obrigado a copiar o repĂºdio, solicitando-lhe que nĂ£o me trouxesse mais flores. Para um psicanalista, Ă© desnecessĂ¡rio enfatizar que, nessa pequena vivĂªncia da garota, encontramos um desses casos tĂ£o frequentes de persistĂªncia do erotismo anal da infĂ¢ncia na vida amorosa adulta. TambĂ©m o desejo de colorir os ovos deriva da mesma fonte. 2. Uma mulher, agora seriamente enferma devido a uma frustraĂ§Ă£o na vida, fora, outrora, uma garota bastante capaz, sincera, boa e virtuosa, e, mais tarde, uma terna esposa. Mas antes, nos primeiros anos de vida, foi uma criança teimosa e insatisfeita, e enquanto passava rapidamente para uma bondade e escrupulosidade excessiva, houve acontecimentos, ainda na escola primĂ¡ria e na Ă©poca da enfermidade, a levariam a fazer-se graves reclamações, julgando-os prova de uma radical abjeĂ§Ă£o. Conforme sua lembrança, naquele tempo ela se jaquetava e mentia com frequĂªncia. Uma vez, a caminho da escola, uma colega lhe disse, orgulhosamente, Ontem, no almoço, tivemos sorvete. Ao que ela respondeu, ora, lĂ¡ em casa temos sorvete todo dia. Na verdade, ela nĂ£o entendeu o que significava ter sorvete na refeiĂ§Ă£o. Conhecia gelo apenas em blocos, tal como Ă© transportado, mas imaginou que aquilo fosse algo distinto e nĂ£o queria ficar atrĂ¡s da coleguinha. Quando tinha 10 anos de idade, o professor de desenho passou-lhes a tarefa de traçar um cĂrculo apenas com lĂ¡pis. Mas ela usou um compasso, produziu facilmente o cĂrculo perfeito e mostrou a sua vizinha triunfante. Veio o professor, ouviu a gabolice, notou as marcas do compasso no cĂrculo e pediu explicações da menina. Ela negou terminantemente o que tivesse usado, nĂ£o fez caso da evidĂªncia e fechou-se num obstinado silĂªncio. O professor teve uma conversa a respeito disso com o pai. A conduta, normalmente exemplar da menina, fez com que nĂ£o tomassem medidas quanto a esse feito. As duas medidas foram motivadas pelo mesmo complexo. Sendo a maior de cinco irmĂ£os, a garota desenvolveu bastante cedo uma afeiĂ§Ă£o extraordinariamente forte pelo pai, que depois lhe estragaria a felicidade na vida adulta. Logo veio a descobrir que o pai tĂ£o amado nĂ£o tinha a grandeza que ela se inclinava a lhe atribuir. Tinha de lutar, com dificuldades financeiras, nĂ£o era tĂ£o poderoso ou nobre como ela supunha. Mas nĂ£o podia tolerar essa diminuiĂ§Ă£o do seu ideal. Pois toda sua ambiĂ§Ă£o no homem amado, como fazem as mulheres, e apoiar o pai contra o mundo, ficou sendo o seu mais forte motivo. EntĂ£o se jactava antes aos colegas para nĂ£o ter que diminuir o pai. Quando mais tarde aprendeu a traduzir sorvete no almoço por glacĂª, estava aberto o caminho para que a repreensĂ£o por essa reminiscĂªncia levasse a um medo de pedaços e estilhaços de vidro. O pai era um excelente desenhista e muitas vezes havia despertado encanto e admiraĂ§Ă£o nos filhos com mostras de seu talento. Identificando-se com o pai, ela desenhou na escola aquele cĂrculo que pĂ´de fazer apenas de modo fraudulento. É como se quisesse gabar-se. Vejam o que meu pai consegue fazer. A consciĂªncia de culpa ligada Ă excessiva inclinaĂ§Ă£o pelo pai. Achou expressĂ£o na tentativa de fraude. Uma confissĂ£o era impossĂvel, pelo mesmo motivo que na observaĂ§Ă£o anterior teria sido a confissĂ£o do oculto amor incertuoso. NĂ£o devemos dar pouco valor a tais episĂ³dios da vida infantil. Seria um grave erro prognosticar, a partir dessas faltas de crianças, o desenvolvimento de um carĂ¡ter imoral. Mas elas estĂ£o relacionadas aos mais fortes motivos da alma infantil e anunciam prĂ©-disposições para vicissitudes posteriores e futuras neuroses. VocĂª acabou de ouvir a leitura do artigo Duas Mentiras Infantias, 1913, de Sigmund Freud. Publicado pela Companhia das Letras, em suas obras completas, no volume 10 de suas obras completas. TraduĂ§Ă£o Paulo Cesar de Sousa.
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