
Listen to podcast completo Trabalho de vera (2) by Kaylane Garcia MP3 song. podcast completo Trabalho de vera (2) song from Kaylane Garcia is available on Audio.com. The duration of song is 31:38. This high-quality MP3 track has 901.43 kbps bitrate and was uploaded on 1 Dec 2023. Stream and download podcast completo Trabalho de vera (2) by Kaylane Garcia for free on Audio.com ā your ultimate destination for MP3 music.










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The podcast discusses the reality of the quilombola population in the MaracujĆ” community. The community faces challenges such as lack of healthcare and recreational spaces for young people. The Association of Residents is currently inactive due to lack of physical space. Education challenges for children include limited interaction with society. The community has benefited from being certified as a quilombola community, such as keeping the school open and faster access to social benefits. The community's name comes from the abundance of a plant called "maracujĆ” de boi." The interview also features a pedagogue and writer who shares strategies to involve students and connect them to their roots through innovative pedagogical practices. No podcast de hoje, iremos falar sobre a realidade da população quilombola na comunidade do MaracujĆ”. O MaracujĆ” Ć© uma comunidade negra rural localizada no municĆpio de Conceição do CoitĆ©, Bahia, a aproximadamente 18 quilĆ“metros da sede do municĆpio, e apresenta caracterĆsticas fitogeogrĆ”ficas semelhantes Ć s encontradas em todo o território do Cisal. Deixando o asfalto da BA 120, que liga Conceição do CoitĆ© Ć cidade de RiachĆ£o de Aquipo, a comunidade quilombola do MaracujĆ” foi uma das poucas do território do Cisal e a primeira a ser certificada pela Fundação Cultural Palmares. Pensando nesse e em tantos outros aspectos, surgiu o questionamento de que modo deu o percurso histórico e o processo de reconhecimento da comunidade quilombola do MaracujĆ” em Conceição do CoitĆ©, Bahia. Nessa perspectiva, nĆ£o poderĆamos deixar de falar da comunidade sem ouvir as narrativas dos moradores desse lugar, que sĆ£o memórias vivas e fazem parte de toda a estruturação dessa entrevista. Neste inĆcio da entrevista, vamos escutar a conversa conduzida com Vanusa, que nos deu a oportunidade de ouvir as perspectivas valiosas da comunidade do MaracujĆ” ao seu olhar como moradora e mĆ£e, onde foram destacadas vĆ”rias questƵes e culturas históricas que serĆ£o compartilhadas durante a nossa entrevista. Quais sĆ£o os principais desafios que a comunidade enfrenta atualmente? Estamos enfrentando uma falta de um posto de saĆŗde. Nós tĆnhamos aqui um grande desafio na seca, que era a falta de Ć”gua. Mas, graƧas a Deus, chegou para nós a Ć”gua encanada, hĆ” seis meses atrĆ”s. E estamos com essa graƧa, pela misericórdia de Deus, lembraram da gente e nos deram de presente a Ć”gua encanada. EntĆ£o, hoje eu diria um posto de saĆŗde e tambĆ©m um espaƧo de diversĆ£o. Um espaƧo para os jovens, adolescentes, bater papo, se distrair, tipo uma pracinha ou uma quadra poloesportiva, onde a juventude tivesse aonde liberar suas energias. Como a Associação de Moradores atua na comunidade do MaracujĆ”? Olha, atualmente a Associação de Moradores estĆ” desatualizada. Quando aconteceu lĆ” na pandemia, quando parou tudo, nós tambĆ©m paramos, como todo mundo. E quando todo mundo voltou, nós nĆ£o voltamos. Por motivo que sempre tivemos aqui um desafio muito grande, que Ć© o espaƧo. NĆ£o temos espaƧo para nada nesta comunidade. Ć um dos desafios que enfrentamos tambĆ©m. Cairia na primeira pergunta, mas foi bem lembrado. Ć um espaƧo fĆsico para que possamos ter as nossas reuniƵes de associação, os movimentos religiosos tambĆ©m, que estĆ£o parados tambĆ©m, porque era tudo na escola e chegou a um ponto que nĆ£o dava mais para ser. Tudo vai ficando atualizado e apertando a coisa mais. EntĆ£o, comeƧou a surgir responsabilidade e aĆ tudo parou. EntĆ£o, desatualizaram tanto a associação como os movimentos religiosos. Quais sĆ£o os desafios que vocĆŖ vĆŖ em relação Ć educação dos seus filhos na comunidade do MaracujĆ”? Olha, essa questĆ£o nĆ£o Ć© preocupante a mim ainda. Eu ainda nĆ£o vejo desafios na educação dos meus filhos vivendo nessa comunidade. Quanto Ć educação, tem a escola que vai aprender, a escola Ć© para ensinar. Muitos pensam que Ć© para educar, mas a educação vem de berƧo. Eu entendo, entendemos que vem de berƧo e devemos preparar nossos filhos para serem educados em todos os campos da vida, conviver na sociedade, no mundo religioso, no mundo da educação. Mas como meus filhos ainda sĆ£o pequenos, a mais velha tem 12 anos, ainda nĆ£o bate essa preocupação em mim quanto estĆ” nessa comunidade. HĆ” desafios, sim. HĆ” desafios, sim, porque sĆ£o crianƧas, adolescentes que convivem pouco com a sociedade. EntĆ£o, aĆ jĆ” Ć© um desafio, porque quando a crianƧa convive pouco com a sociedade, ela nĆ£o tem o contato com a saĆŗde, ela nĆ£o tem o contato com a religiĆ£o, ela nĆ£o tem o contato com o futebol, ela nĆ£o tem o contato com o social. Isso pode atrapalhar na educação dessa crianƧa no futuro. Mas, se tratando de agora, nĆ£o hĆ” essa preocupação ainda em mim. HĆ” quanto tempo a senhora mora aqui na comunidade do MaracujĆ”? HĆ” 42 anos. Eu nasci e me criei aqui nessa comunidade. GraƧas a Deus, eu sou de berƧo aqui nessa comunidade. Quais benefĆcios positivos a comunidade passou a ter após o certificado de comunidade quilombola e como isso ajudou na educação do seu filho? Eu acho que só a escola, que conseguimos mantĆŖ-la aqui em aberto, porque vĆ”rias comunidades fecharam as escolas. E nesse tempo, porque eu nĆ£o lembro muito bem o ano, teve-se uma luta tambĆ©m para fechar a nossa, o Ćŗnico bem que a gente tinha e que temos Ć© a escola. E aĆ, a gente tambĆ©m teve que lutar com as nossas armas. E a arma que nós tĆnhamos na mĆ£o foi o cerquilombo. E aĆ, por ser quilombolas, nĆ£o fecharam. EntĆ£o, se nĆ£o fosse, tinha fechado. EntĆ£o, Ć© um ponto positivo. E tambĆ©m a questĆ£o dos benefĆcios. Os benefĆcios, quando a gente cadastra, seja lĆ” qual benefĆcio for, benefĆcio social, que a gente coloca lĆ” da identificação de quilombolas, tem aquela rapidez, tem aquela preocupação do governo. EntĆ£o, tambĆ©m Ć© positividade, sĆ£o pontos positivos. Tem pessoas que fazem um cadastro, alguma questĆ£o, recorre a alguma questĆ£o na justiƧa, por ser quilombola, tambĆ©m consegue com mais facilidade. EntĆ£o, sĆ£o pontos positivos. Olha, o nome, segundo os antepassados, Ć© por causa da planta. O que mais encontraram aqui foi o maracujĆ” de boi, o chamado maracujĆ” de boi, aquela ramagem. Encontraram bastante quando comeƧaram a roƧar aqui o terreno. E aĆ deram-se esse nome, por esse motivo. E quanto Ć fundação, eles tambĆ©m, os antepassados tambĆ©m contavam que fundou-se com quatro irmĆ£os. Chegaram para roƧar esses irmĆ£os, eles vieram, segundo eles, vieram da comunidade da vazante, próximo daqui tambĆ©m, fica entre Canção e MaracujĆ”, vinheiro da vazante. E nessa caminhada encontraram aqui essas terras e resolveram roƧar e construir suas primeiras casinhas. Que foram os quatro irmĆ£os ZĆ© de Souza, Severino de Souza, Calixto de Souza e Gregório de Souza e suas esposas. Uma mudanƧa geral, Ć© uma nova escola. E nĆ£o sei se vai ser possĆvel, mas eu ainda sonho em ver essa escola cair por terra e ser construĆda uma nova escola quilombro. Com a identidade da comunidade. Esse Ć© um, eu nĆ£o sei se Ć© o sonho de todos, mas Ć© o meu. De ver uma construção de uma nova escola, um novo espaƧo escolar com a identidade. E quanto ao conteĆŗdo, trouxesse um, trabalhasse mais nessa, nesse ser quilombolas, nessa educação quilombolas. E atĆ© mesmo os professores, quanto a atuação dos professores em sala de aula, direção, funcionĆ”rio, optasse por professores negro, direção negra, funcionĆ”rio negro. Sabe? Para que o aluno se identificasse ali, para que o aluno ganhasse forƧa. Para que o aluno se visse dentro da sua própria casa e tivesse essa vontade de querer tambĆ©m ser como aquele professor, como aquele diretor, como aquele funcionĆ”rio. Ć isso. Nada contra professores brancos, Ć© muito pelo contrĆ”rio, estamos falando aqui de identidade. Nessa próxima fase da entrevista, teremos a oportunidade de dialogar com a escritora e pedagoga Rayane Cordeiro, que compartilharĆ” sobre suas obras relacionadas Ć cultura do quilombo da comunidade do MaracujĆ”, alĆ©m de elaborar as questƵes educacionais dessa localidade. Boa tarde, Rayane. Desde jĆ” agradecemos pela sua presenƧa, como eu falei, Ć© uma honra para a gente estar aqui, lhe entrevistando, entrevistar uma escritora regional, uma pessoa que escreve sobre a comunidade quilombola, e Ć© honroso para a gente que estĆ” apresentando um podcast para falar sobre o quilombo de Conceição do CoitĆ©. A primeira pergunta que eu vou fazer Ć© se vocĆŖ poderia contar para a gente alguma história pessoal e quais estratĆ©gias pedagógicas inovadoras sĆ£o usadas para envolver os alunos e mantĆŖ-los conectados com suas raĆzes. Bom, na verdade assim, sempre me perguntam o porquĆŖ que eu resolvi escrever sobre o quilombo do MaracujĆ”. Em 2019 eu passei num concurso pĆŗblico e eu tinha a opção de trabalhar ou em Juazeirinho ou no MaracujĆ”, e eu conheci o quilombo do MaracujĆ” na graduação. Eu estava acho que no terceiro ou quarto semestre de pedagogia, a gente foi fazer um trabalho tipo esse que vocĆŖs estĆ£o fazendo, e aĆ quando eu conheci o quilombo eu me apaixonei. Terminei a graduação, mas sempre com aquela vontade de voltar lĆ”, e aĆ com essa oportunidade do concurso eu escolhi logo ir para o MaracujĆ”. EntĆ£o eu comecei minha prĆ”tica como professora lĆ” em 2019 e eu fui surpreendida pelo fato de ser uma comunidade quilombola, de ser uma escola localizada no quilombo, mas ter os materiais didĆ”ticos como se fosse uma escola comum. E assim, a sala que eu trabalhava tinha uma quantidade muito grande de livros paradidĆ”ticos, de leitura, que foi algo que eu sempre gostei muito de fazer com as crianƧas. Só que o que eu percebi Ć© que eram leituras com protagonistas brancos. EntĆ£o isso me chamou atenção, porque eu acreditava que aquelas crianƧas precisavam se enxergar nos materiais didĆ”ticos, nos materiais paradidĆ”ticos, para elas se reconhecerem, enquanto pessoas negras, valorizarem a sua cultura, valorizarem o seu local. EntĆ£o tudo comeƧou daĆ, da minha prĆ”tica enquanto professora, da ausĆŖncia desse material, desses materiais didĆ”ticos e paradidĆ”ticos com protagonistas negros. Nesse mesmo ano eu passei no mestrado em Serrinha, na Uneve de Serrinha, e como eu fiz o mestrado profissional, precisava ter, alĆ©m do TCC, um produto. Poderia ser uma formação, um material didĆ”tico, e eu resolvi utilizar a questĆ£o da história da comunidade para falar um pouco sobre aquele lugar, sobre aquelas crianƧas. E a partir disso eu jĆ” comecei, eu nĆ£o diria com prĆ”ticas inovadoras na sala de aula, mas com prĆ”ticas que fizessem aquelas crianƧas se valorizarem, se enxergarem. EntĆ£o eu comecei a utilizar muitas dinĆ¢micas voltadas para essa questĆ£o da valorização, da cor da pele. Levei vĆ”rias histórias infantis, comecei a comprar livros, a baixar na internet, livros de histórias infantis que falavam sobre a cor da pele, e aĆ pedia para eles fazerem pinturas. No inĆcio eles tinham uma resistĆŖncia grande, porque eles queriam utilizar o lĆ”pis bege, que era o lĆ”pis que eles sempre chamavam de lĆ”pis cor da pele. E aĆ eu comecei a questionar com eles, cor de qual pele? Porque aqui na sala a gente tem uma variedade muito grande de tons de pele. EntĆ£o assim, fui trabalhando com eles essas questƵes. Nada inovador, mas necessĆ”rio para justamente valorizar, resgatar. E nĆ£o foi um trabalho que foi fĆ”cil, foi rĆ”pido. Eu ainda estou nesse trabalho, desde 2019 que eu estou com essas crianƧas. Elas eram grupo 4 e 5. Hoje elas jĆ” sĆ£o quarto ano e quinto ano. E a gente continua esse processo. Volto e meia eles falam para o lĆ”pis cor da pele, eu falo qual pele? E aĆ eles falam, nĆ£o, lĆ”pis bege. EntĆ£o Ć© um processo que Ć© por muitos anos. A gente precisa estar sempre trazendo esse resgate para a sala de aula, contando a história diferente daquela que nos Ć© contada pelos livros didĆ”ticos, porque a gente sabe que a gente tem uma escolarização totalmente europeizada. EntĆ£o a gente precisa transpor isso, passar por essa etapa, que nĆ£o Ć© fĆ”cil, para a gente desconstruir. A gente passou a nossa vida inteira escutando sobre as questƵes voltadas para a forma como o Brasil foi colonizado, e hoje a gente sabe que nĆ£o Ć© bem daquele jeito. EntĆ£o Ć© um papel difĆcil da gente estar mudando na forma das crianƧas pensarem, mas Ć© extremamente necessĆ”rio. E a gente tem que fazer isso na base, enquanto eles sĆ£o pequenos, para quando eles crescerem eles terem um pensamento diferente do que aconteceu com a gente. Porque para mudar enquanto adulto jĆ” Ć© mais difĆcil. Algo que te motivou a escrever mais sobre o quilombo, alĆ©m do que vocĆŖ falou para a gente aqui agora, algo que te motivou mesmo a falar assim, olha, eu vou escrever sobre o quilombo do MaracujĆ”. Acredito que a minha vivĆŖncia com a comunidade, pela forma como eu fui acolhida, pela forma como as pessoas lĆ” me tratavam, a gente tem uma relação muito forte lĆ” com as avós, com os avĆ“s. Eles estĆ£o sempre presentes na criação das crianƧas, entĆ£o vĆ£o levar a escola, vĆ£o buscar. EntĆ£o eu sempre fui muito bem acolhida. E quando eu comecei a fazer o mestrado, eu senti uma ausĆŖncia de um material didĆ”tico, ou paradidĆ”tico, que contasse a história para as crianƧas. A gente tem muita coisa produzida, e tambĆ©m Ć© algo tĆpico de comunidades quilombolas a questĆ£o da oralidade, mas o que a gente tem percebido Ć© que as pessoas mais velhas estĆ£o morrendo e essas tradiƧƵes, essas histórias, muitas vezes elas nĆ£o sĆ£o perpetuadas pelos mais jovens. EntĆ£o eu achei interessante, a partir da minha pesquisa, que eu escutei, fiz entrevista com as idosas do quilombo, com os professores da escola, com lĆderes da comunidade. EntĆ£o eu achei interessante colocar essa história no papel de uma forma que a gente pudesse utilizar na escola. E Ć© um livro, eu costumo dizer que Ć© um livro que, apesar de ser um livro infantil, ele conta uma história verdadeira. EntĆ£o a gente pode trabalhar com todas as idades. O que vai mudar Ć© a forma como a gente vai falar para o pĆŗblico, porque quando Ć© um pĆŗblico infantil vocĆŖ tem que ter uma linguagem direcionada para a crianƧa. Ć um pĆŗblico adulto, o foco muda. EntĆ£o a minha maior motivação foi o dia a dia com eles, a convivĆŖncia com as crianƧas, o fato de perceberem que eles precisavam fazer esse resgate da cultura. Ć algo que a escola estĆ” tentando mudar. A gente nĆ£o estĆ” nem perto do que deve ser, mas a gente jĆ” avanƧou muito se a gente comparar 2019 para cĆ”. Bom, quais sĆ£o os maiores desafios que vocĆŖ enfrentou em escrever sobre a comunidade do MaracujĆ”? Na verdade, eu nĆ£o considero que eu tive nenhum desafio, muito pelo contrĆ”rio, para mim foi muito prazeroso, porque a história surgiu da escuta das crianƧas, do dia a dia das crianƧas, das entrevistas, e as personagens dos livros, desse primeiro livro no caso, a vovó do livro, ela representa todas as avós que eu entrevistei. EntĆ£o eu transformei ela em uma personagem fictĆcia, mas que traz a personalidade de todas ali. EntĆ£o eu trouxe as falas de todas. Ć um livro que foi, eu posso dizer para vocĆŖ, que foi feito junto com as crianƧas, que foi feito junto com a comunidade. EntĆ£o eu nĆ£o tive desafio, eles me abraƧaram, ficaram muito felizes quando eu disse que eu ia trazer uma história, que eles iam aparecer, e de fato eu tirei foto das crianƧas e pedi para a ilustradora que fizesse os personagens das ilustraƧƵes parecidos com eles, para que quando eles recebessem os livros, o livro porque eles ganharam, eles olhassem e dissessem assim, pró, sou eu, e isso de fato aconteceu. Eles perguntavam, isso daqui Ć© fulano? AĆ eu dizia, nĆ£o sei, mas parece. EntĆ£o atĆ© hoje eles de fato nĆ£o sabem se Ć© realmente aquela crianƧa ou nĆ£o, mas eles conseguem ver traƧos. Eles fazem uma alusĆ£o, dizendo que parece o coleguinha tal. EntĆ£o Ć© isso que para mim foi o mais gratificante. Eu nĆ£o tive desafio, muito pelo contrĆ”rio, eu tive muita ajuda. Eu escrevi junto com eles. Interessante, nĆ©? Bom, quais sĆ£o os principais temas que vocĆŖ aborda nesses livros? EntĆ£o, eu tenho hoje trĆŖs livros publicados, e os trĆŖs eles tratam de questƵes regionais. O primeiro, que Ć© a riqueza do lugar, que fala sobre a história da comunidade do Quilombo do MaracujĆ”. O segundo, que Ć© sobre a Orquestra Santo AntĆ“nio, que Ć© os diferentes sons do Quilombo. Porque assim como o pessoal da orquestra, quando a gente comeƧa a escrever, quando a gente se destaca em alguma coisa na nossa cidade, a gente percebe um nĆ£o reconhecimento. Ćs vezes quem Ć© de fora reconhece a gente mais do que as pessoas da nossa própria cidade. EntĆ£o eu senti que eles tambĆ©m passavam por isso. Uma orquestra que Ć© conhecida internacionalmente, mas que muitas vezes tem concerto e a gente nĆ£o vai. A gente nĆ£o se move a trazer para um momento cultural. Eu vejo muito pouco isso. EntĆ£o eu achei interessante fazer isso. E esse segundo livro, eles receberam 5% de toda a venda do livro, como uma forma de ajudar. Porque foi justamente no perĆodo da pandemia, nĆ£o estava tendo editais. EntĆ£o eu pensei, de alguma forma vai me ajudar na divulgação, eles vĆ£o ser ajudados com a questĆ£o da venda do livro. EntĆ£o o pensamento foi esse. E o terceiro, que Ć© o mais recente, Ćrvore que Virou Cidade, eu diria que fechou essa trilogia regional. Porque ele conta a história do surgimento de CoitĆ©, tambĆ©m com a linguagem voltada para o pĆŗblico infantil. Porque a gente jĆ” tem livros publicados, só que mais para um pĆŗblico adolescente, um pĆŗblico adulto. E muitas vezes, enquanto professora, eu tinha dificuldade de trazer essa história para os meus alunos. E tudo que eu faƧo, tudo que eu escrevo, Ć© pensando neles, em como eu vou trazer isso para eles. E esse terceiro livro, alĆ©m de ele falar sobre o surgimento da cidade de CoitĆ©, ele traz tambĆ©m um pouco sobre a questĆ£o da religiosidade, da importĆ¢ncia de a gente valorizar e conhecer todas as religiƵes, respeitar, porque a gente tem percebido muitas questƵes hoje voltadas para a intolerĆ¢ncia religiosa. E principalmente em comunidades quilombolas, que a gente vĆŖ que muitas vezes a cultura estĆ” se perdendo, porque as pessoas tĆŖm medo de se manifestarem, principalmente com relação Ć questĆ£o da religiĆ£o. EntĆ£o, eu achei interessante trazer. EntĆ£o, os trĆŖs livros trazem histórias verdadeiras, que aconteceram, porĆ©m voltadas para um pĆŗblico infantil, com a linguagem mais infantil. Como vocĆŖ vĆŖ o papel da escrita na luta por direitos e reconhecimento da comunidade? Eu acho que atĆ© jĆ” respondi um pouquinho dessa pergunta. Eu acredito que esses livros vĆ£o servir como documentos de emancipação para essas crianƧas, e Ć© tambĆ©m uma forma de incentivĆ”-las a ler e a escrever. Porque Ć s vezes, quando a gente nĆ£o estĆ” nesse universo, a gente acha que Ć© muito difĆcil escrever um livro. O difĆcil nĆ£o Ć© escrever, o difĆcil Ć© publicar, que Ć© caro, mas escrever nĆ£o Ć© difĆcil. Mas um dia desses, uma aluna me perguntou assim, Prol, por que a senhora escreve só sobre a gente? Falei, porque vocĆŖs fazem parte da minha vida, vocĆŖs sĆ£o a minha segunda famĆlia. Parece uma coisa que a gente fala, clichĆŖ, mas nĆ£o Ć©. Se a gente for fazer as contas, a gente passa muito mais tempo com eles, muitas vezes, do que com a própria famĆlia. EntĆ£o, nĆ£o ia servir para mim falar sobre outro lugar, nĆ£o ser do lugar que eu estou, do lugar que me acolheu. EntĆ£o, Ć© uma forma de fazer com que eles se enxerguem ali, se valorizem, se motivem a escrever, se motivem a estudar. Porque eu sempre digo para eles que só atravĆ©s do estudo Ć© que eles vĆ£o conseguir mudar de vida, ser alguĆ©m na vida, possam ir para a comunidade, posto de saĆŗde, porque lĆ” a gente nĆ£o tem esse serviƧo. E tantos outros, para ser atĆ© uma forma de que eles possam ficar na comunidade. Bom, essa tambĆ©m a gente achou bastante interessante, porque quais autores ou escritores influenciaram a sua abordagem para escrever sobre o maracujĆ”? EntĆ£o, antes de eu comeƧar a escrever sobre o maracujĆ”, propriamente dito, eu precisei estudar sobre essas questƵes de educaƧƵes antirracistas, porque atĆ© entĆ£o era uma novidade para mim. E eu tive a oportunidade de dizer isso pessoalmente a ela, me orgulho muito, porque Ć© uma pessoa muito simples, que foi Djamila Ribeiro. Djamila Ribeiro, com o livro Pequeno Manual Antirracista e O Lugar de Fala, Ć© como se ela estivesse dizendo para mim que, apesar de ser uma mulher branca, eu poderia escrever sobre essas temĆ”ticas, porque atĆ© entĆ£o eu me sentia meio que deslocada, eu achava que eu nĆ£o podia. Por que uma mulher branca vai falar sobre uma temĆ”tica, sobre uma educação antirracial, sobre uma educação antirracista? Eu ficava muito confusa, muito aflita. E quando eu lia esses dois livros, ela fala muito claramente que todos nós temos um lugar de fala. O que no meu caso eu nĆ£o tenho Ć© a representatividade da cor preta. Eu nunca, por exemplo, vou passar por uma situação de preconceito, entĆ£o eu nĆ£o vou poder falar dessa situação do racismo propriamente dito. Mas eu posso, enquanto professora, fazer esse papel na escola de ajudar essas crianƧas a conhecerem a sua verdadeira história. EntĆ£o, assim, eu acho que a minha maior referĆŖncia Ć© de Jamila Ribeiro. Tiveram inĆŗmeras outras. Eu li artigos da professora Iris Verena daqui do campus, li a dissertação, a tese de doutorado da professora LĆŗcia Parceiro, que Ć© tambĆ©m aqui do departamento, nĆ£o sei se ela continua como professora, e ela fala jĆ” mais especificamente do MaracujĆ”. EntĆ£o, foi um trabalho que me ajudou muito. Mas foi muita gente. Nilma Lino Gomes. Mas eu acho que de Jamila foi, assim, quem me norteou e disse pra mim vocĆŖ pode falar, mesmo sendo uma mulher branca. Depois que eu li aquele livro dela, principalmente o lugar de fala, Ć© como se tivesse tirado um vĆ©u, sabe, dos meus olhos, e eu consegui escrever. Porque atĆ© entĆ£o eu queria, mas eu nĆ£o sabia por onde comeƧar. EntĆ£o eu acredito que ela e Iris Verena, com artigos que eu li dela tambĆ©m, e a professora LĆŗcia. Obrigada. Bom, essa Ć© a Ćŗltima pergunta. Sabemos que vocĆŖ Ć© professora da comunidade de MaracujĆ”, e nós gostarĆamos de saber como os alunos reagem a saber que sua professora aborda temas relacionados Ć sua própria cultura escrita, e se vocĆŖ percebe se eles se sentem representados nos seus livros e nas suas obras. Eu acredito que sim, eles se sentem. Porque, como eu falei anteriormente, todas as ilustraƧƵes de todos os livros sĆ£o baseadas nas crianƧas da escola. Eu nĆ£o trago a fotografia deles, porque isso aĆ envolveria uma questĆ£o voltada para autorização, que seria muito complicado, mas Ć© como se fosse uma caricatura. EntĆ£o essa caricatura faz com que eles se enxerguem de fato. Eles jĆ” conseguem perceber que existem protagonistas negros, existem reis e rainhas que podem ser negros, porque atĆ© entĆ£o, na cabeƧa deles eram prĆncipes e princesas, reis e rainhas, brancos, loiros, dos olhos azuis ou verdes. EntĆ£o, assim, isso a gente jĆ” consegue perceber de forma muito notória. E o que acontece? Nas pinturas, por exemplo, eles adoram pintar. Eles sĆ£o 3Āŗ, 4Āŗ, 5Āŗ ano, mas eles amam pintar. EntĆ£o eles jĆ” naturalizaram utilizar o lĆ”pis marrom, utilizar o lĆ”pis preto. Antes teve situaƧƵes que eu precisei tirar o lĆ”pis beige, porque tudo eles queriam pintar da cor beige. Teve uma situação, por exemplo, que eu pedi que eles representassem a vovĆ“. O vovĆ“ e a vovĆ“. Porque como sĆ£o pessoas que estĆ£o muito presentes, foi uma data que eu achei interessante marcar. LĆ” em 2019, eu falei, eu quero que vocĆŖs pintem o vovĆ“ e a vovĆ“ da cor que eles sĆ£o. Eu frisei isso bastante. AĆ eu levei aquela pintura preta e branca para eles colorirem. E eu tinha 12 crianƧas na sala. Das 12, duas pintaram os avós com a cor preta ou marrom. Todos os outros 10 pintaram com a cor beige. E aĆ eu fui e falei, mas a vovó de vocĆŖs Ć© da cor da frou? E aĆ eles nĆ£o souberam me responder. Estava tĆ£o naturalizado para eles aquela cor que era automĆ”tico. Como eu jĆ” sabia que isso poderia acontecer, eu jĆ” tinha levado a quantidade de cópias a mais. Falei, a gente vai pintar agora a vovĆ“ e o vovĆ“ da cor que eles sĆ£o. E aĆ eu comecei pintando com eles. Vou pintar um pouquinho aqui e vocĆŖ termina. E aĆ pronto. A partir daquilo ali, eles jĆ” comeƧaram a mudar a forma de enxergar. E isso nada mais Ć© do que o que eles enxergam na televisĆ£o, nos livros, na escola, nos cartazes. EntĆ£o a gente precisa mudar isso. E Ć© como eu falei, nĆ£o Ć© simples, nĆ£o Ć© rĆ”pido, mas a gente consegue. Porque hoje essas crianƧas que eram lĆ” grupo 4 e 5, e hoje sĆ£o quarto e quinto ano, eu nĆ£o preciso mais falar, oh, vocĆŖs vĆ£o pintar da cor que eles sĆ£o. Naturalmente eles jĆ” fazem isso. Uma coisa que eu sempre faƧo com eles, que eles adoram, Ć© eu levo um livro, todos os livros, 99% dos livros que eu leio, pra ler pra eles, sĆ£o livros com protagonistas negros. Eu faƧo isso ao longo do ano todo, nĆ£o só no novembro, porque eu acho que Ć© uma outra coisa que a gente precisa tambĆ©m eliminar. NĆ£o só falar no novembro. O novembro a gente tem que marcar, Ć© importante. Mas tem que ser falado o ano inteiro. E Ć© o que eu busco fazer. AĆ eu sempre faƧo a leitura do livro e utilizo um aplicativo pra pegar a imagem do próprio livro e colocar em preto e branco e peƧo pra eles colorirem. E aĆ eles fazem utilizando as cores que realmente sĆ£o os personagens. Tem personagens que tem a cor jĆ” mais retinta, entĆ£o eles pintam mais forte. Quando tem uma corzinha mais clara, eles jĆ” pintam um pouquinho mais claro, usam marrom mais clarinho. EntĆ£o eles jĆ” conseguem perceber a variedade dos tons de pele. E isso sem eu precisar marcar. FaƧam assim, jĆ” Ć© natural. EntĆ£o dĆ” pra perceber que o trabalho tĆ” funcionando, tĆ” fluindo. E a gente tem apoio tambĆ©m das outras professoras da escola que tem esse mesmo pensamento. A gente consegue seguir essa linha e aĆ o trabalho vai fluindo. Bom, nós agradecemos pela sua presenƧa. Como eu falei no inĆcio, nós estamos honrados. E pra finalizar, tem alguma frase que vocĆŖ quer deixar marcado nesse podcast? Eu acho que a frase que eu mais falo pros meus alunos Ć© que só atravĆ©s do estudo que eles vĆ£o poder transformar a sua vida. Disciplina, comunicação e realidade brasileira e regional abordando o tema A Realidade da População Vilambola na Comunidade do MaracujĆ”. Contando com as vozes das comunicadoras Vanessa Lohana, Franciele Santos, Keila Silva e Edivando Lima. E com as entrevistadas Vanusa, Rayane Cordeiro, Roteiro, Cailane Garcia. Edição de Ć”udio tambĆ©m foi realizada por Cailane Garcia. Legendas pela comunidade Amara.org
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